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As contradições do Natal

O Especial de Natal do Portas dos Fundos, A Primeira Tentação de Cristo, movimentou as redes sociais e uma petição com mais de dois milhões de assinaturas pede a sua exclusão pela Netflix Brasil que, por sua vez, renovou o contrato da produção que bateu recordes de acessos através do streaming. A polêmica serviu para muitos lembrarem de Jesus, pois curio­samente, na data estipulada para celebrar seu aniversário, ele passou a ser coadjuvante e Papai Noel o protagonista.

Apresentamos uma reflexão: o que a sociedade realmente deseja? O Bom Velhinho com seus presentes ou o Bom Pastor com suas renúncias? Desde de crianças somos condicionados a crer que diante de um bom comportamento e boas notas escolares, anualmente um cidadão vai sair do Polo Norte para atender nossos desejos consumistas. Algo bem mais fácil do que seguir os dez mandamentos apresentados por Moisés e resumidas por Cristo em amar a Deus com todo o coração, alma e mente e ao próximo como a si mesmo.

O Messias tinha uma agenda objetiva e deixou claro sua missão: “eu vim para que tenham vida, e a tenham com abun­dância”. Sempre alertava para nos preocuparmos com as coi­sas que não passam, mas fez importantes ações no cotidiano do povo. Emanuel experimentou de perto todas as dores que as pessoas comuns sentiam, inclusive a sensação de abandono das milhares de crianças que nascem sem assistência médi­ca e dos imigrantes que não encontram moradia.

Ele esteve ao lado e amparou os miseráveis e excluídos da sociedade. Se seus exemplos fossem minimamente seguidos teríamos assistência social para os que perambulam pelas ruas claman­do por uma moeda e saúde para os milhões que diariamente peregrinam nas portas dos hospitais.

O Príncipe da Paz enfrentou o preconceito e a intolerância, foi desprezado em sua própria terra, conheceu o ódio das auto­ridades, a violência das forças de segurança e a manipulação do sistema jurídico, sendo julgado e condenado ao arrepio da lei, fatos que continuam ocorrendo até os dias de hoje.

A linda história de Jesus tem sido romantizada e seu sacri­fício não recebe o devido valor. Os pinheiros iluminados são mais interessantes que os presépios. É muito difícil abandonar o trenó cheio de presentes e carregar a pesada cruz :“Porque a mensagem da cruz é loucura para os que se perdem, mas para nós, que somos salvos, é o poder de Deus.” 1. Coríntios 1:18.

Mudar não é fácil, mergulhar nas ações compensatórias do Natal é. Desta forma o patrão explorador dá um panetone ao empregado; o marido agressor dá uma caixa de bombom; o so­negador de impostos dá uma oferta maior na igreja; o trafican­te patrocina um almoço comunitário; a socialite doa algumas roupas inservíveis e o político distribui bolas e bonecas de plástico como se fossem sacrifícios em expiação dos pecados cotidianos. Passado o Natal, todos continuam com suas rotinas.

As tentações que Jesus superou no deserto estão presentes atualmente: os prazeres da carne, a soberba e a busca do cami­nho mais fácil. Alguns deuses estão sendo apresentados como alternativa mais agradável. Sua resposta foi enfática: “Retire-se, Satanás! Pois está escrito: ‘Adore o Senhor, o seu Deus e só a ele preste culto’” (Mateus 4:10, Deuteronômio 6:13).

Jesus é o rosto divino do homem e rosto humano de Deus. Celebrar o Natal é buscar compreender e verdadeiramente viver seu legado, exercitando o amor, respeito e tolerância.

A consciência nossa de cada dia

Caro leitor, vou contar com sua complacência para dedicar parte de seu precioso tempo em mais uma reflexão. Falar sobre o mês da consciência, mais do que uma necessidade é minha obrigação. E não falo apenas em causa própria, trago comigo uma multidão. Cansada da intolerância e da discriminação.

Desde quando o movimento negro passou a comemorar o dia de 20 de novembro, algumas vozes insistem em transformar a data em tormento. Ficam muito incomodados pregando que preconceito não existe. Estão cegos e não enxergam que o racis­mo e a discriminação ainda persistem. Falam em consciência humana e que todos são iguais, mas esquecem de que só nesta semana tivemos dezenas de casos, no Brasil e internacionais.

Começou com Taison e Dentinho no Campeonato Ucra­niano, passou por dois torcedores do Galo Atleticano. Até o porta-voz do MBL foi acusado de agredir uma cozinheira e a empresa de terceirização não quer “gorda, nem negra” em suas fileiras. Um ou outro caso isolado, você poderia dizer. Mas olhe bem ao seu lado, preste atenção para compreender, na fila do desemprego, no salário reduzido, bala perdida, no barraco da favela, do jovem assassinado… É possível não ver? 131 anos se passaram e muita coisa mudou, mas existe algo enraizado, que nem o tempo levou.

A diferença na cor da pele foi usada para justificar a escra­vatura e apesar da abolição, continua em nossa cultura. Tem aqueles que não falam, mas no fundo acreditam e tem os que não se aguentam e logo exteriorizam. Ignoram que melanina é uma proteína que determina a nossa coloração e não pode ser usada como critério para contratação. Quantos empresá­rios continuam com a indecência de empregar trabalhadores pela cor ou aparência. E o cabelo bom, quem é que tem? Como pode o cabelo determinar o futuro de alguém? Sendo crespo, cacheado até mesmo carapinha, se foi descolorido ou alisado a vida não é minha?

A discriminação racial direta está em nosso cotidiano e o crime de ódio cada vez mais aumentando. O racismo institu­cional é menos direto e evidente. Um exemplo é a abordagem policial e desconfiança de seus agentes. O Racismo estrutural está mais presente no seu dia-a-dia. Veja na sua empresa quantos negros tem chefia? A situação é bem pior quando fal­ta a lucidez, tem os que gostam de humilhar e se desculpam com desfaçatez.

Se a educação é fundamental para o desenvolvimento da nação, garantir o acesso é o início da transformação. Por isso nem tudo está perdido é tempo de esperançar. Pela primeira vez na história, negros são maioria nas universidades públicas e vamos comemorar. Este é um reflexo das políticas de inclusão, tão combatidas por aqueles que se achavam donos da nação.

Quero convidar você para ser agente da mudança. Não classifique pessoas pela cor, respeite o idoso e a criança. Rea­lize um debate crítico dentro de seu trabalho ou família. Nada de apelidos, tenha maturidade. Converse com seus amigos, sem rancor ou maldade. Lutar por um mundo melhor, sem preconceito e com mais respeito é obrigação de cada um, não importa se branco, amarelo ou negro. E como dizia Zumbi, nosso primeiro herói nacional: “É chegada a hora de tirar nossa nação das trevas da injustiça racial”.

Janeiro: fé, religião e política

Janeiro é um mês repleto de efemérides interessantes tais como o dia de São Sebastião, Padroeiro de várias cidades, entre as quais Ribeirão Preto e Rio de Janeiro, comemorado no dia 20. Apesar de confundido com Santo Expedito, por Regina Duarte, o santo possui um grande número de devotos e uma linda história.

Segundo ensinam, nascido na França, foi cedo para a Itália e tornou-se capitão do exército do Imperador Maximiano, denuncia­do recebeu a ordem de renunciar à sua fé em Jesus Cristo e diante da negativa foi condenado a uma pública e cruenta. Recebeu várias flechadas e foi deixado para sangrar até a morte. Ele resistiu, conti­nuou vivo e, depois de recuperado voltou a evangelizar e novamente colocou-se diante do Imperador para solicitar que parasse de perse­guir os cristãos. Da segunda vez foi açoitado até a morte. Ele levou a fé até as últimas consequências, mas não ameaçou tão pouco matou ninguém, ao contrário, entregou a própria vida.

Na sequência, 21 de janeiro é Dia Nacional de Combate à Intolerância Religiosa. Os dados desta prática no Brasil são alar­mantes, mas na Baixada Fluminense uma situação chama a atenção: o chamado Bonde de Jesus. O grupo formado por traficantes que se dizem convertidos e evangélicos, promove ataques a terreiros de umbanda e candomblé.

Temos, ainda, o 27 de janeiro, Dia Internacional em Memória das Vítimas do Holocausto, página vergonhosa onde grupos sociais considerados “inferiores”, pelos nazistas, como negros, homosse­xuais, judeus, Testemunhas de Jeová e ciganos, sofreram todas as barbáries nos campos de concentração. Curiosamente neste mês o país ficou estarrecido com o pronunciamento do ex-secretário da cultura em clara apologia ao nazismo.

Observamos que as três datas trazem algo em comum: a relação entre fé, religião e poder político e como as duas primeiras podem ser utilizadas como instrumento de dominação. As religiões exercem grande influência na forma que as pessoas enxergam e pensam o mundo e historicamente reis, imperadores e líderes em geral souberam usá-las. A Bíblia e os livros escolares estão recheados de exemplos: Sadraque, Mesaque e Abede-nego foram lançados numa fornalha ardente, a mando do rei Nabucodonosor; João Batista foi decapitado; Jesus e vários discípulos crucificados; Joana D’Arc foi queimada viva…

Na atualidade continua sendo instrumento de segregação de mi­norias, limitando o acesso a direitos humanos, criando uma legião de refugiados, promovendo divisões em várias nações e fomentando vários conflitos. Mais existe uma esperança e duas igrejas tradicionais dão im­portantes demonstrações de estímulo à compreensão e diálogo.

A Igreja Adventista do Sétimo Dia organizou o Departamento de Assuntos Públicos e Liberdade Religiosa que “não só se preocupa com a liberdade religiosa dos membros e das organizações e entidades que mantém, mas também apoia o direito irrestrito à liberdade religiosa para todas as pessoas, independentemente de sua filiação religiosa”.

A Igreja Católica, através do Concílio Vaticano II e do documen­to Nostra Aetate, exorta seus filhos exercitarem “a prudência e amor, através do diálogo e da colaboração com os seguidores de outras religiões, testemunhando sempre a fé e vida cristãs, reconheçam, mantenham e desenvolvam os bens espirituais e morais, como tam­bém os valores socioculturais que entre eles se encontram”.

Falando de religiosidade e de janeiro, não podemos esquecer de Salvador, na Bahia, onde mais de um milhão de pessoas estiveram mobilizadas da Lavagem do Bonfim e no cortejo com grupos de entidades católicas, afoxés, blocos afro e representantes dos terreiros de candomblé. A novidade foram evangélicos distribuindo “fitinhas do Senhor Jesus” para substituir as “fitinhas do Senhor do Bonfim”.

Em um país com grande divisão ideológica, respeitar os locais e liturgias religiosas; garantir a inviolabilidade e as liberdades indivi­duais de crença, credo, culto e religião é dever de todos.

Feliz ano novo, de novo

A humanidade possui a necessidade de contar o tempo e para tal desenvolveu calendários. Tem o Chinês, o Lunar, o Solar, o Maia, o Islâmico e o nosso Calendário Cristão ou Gregoriano que registra a transição de 2019 para 2020. Com viagens, festas, mesas fartas, troca de mensagens, queima de fogos (agora sem barulho), as pessoas agradecem o encerramento de um ano velho e projetam as realizações para um novo.

Nos últimos dias as emissoras de televisão dedicaram horas de programação na realização de retrospectivas e os telespectadores mais atentos perceberam que, semelhante ao ano anterior, 2019 foi marcado pelas tradicionais tragédias individuais e coletivas. Aviões continuaram caindo, navios afundando, barracos incendiados ou soterrados, ruas inundadas, maridos matando esposas… As mesmas histórias com personagens diferentes.

A política prometia um novo ambiente, nos estados a posse de governadores, no Congresso uma renovação histórica e na presidência da república um Mito. Bastaram alguns dias para a constatação de que a “nova política” não era tão nova assim e a decepção chegou muito rápido. Enquanto pequena parte da população celebrou a reforma da previdência, a retirada de mais direitos trabalhistas e a tímida geração de empregos, a maioria sentiu na pele a falta de efetividade nas ações para a educação, cultura, saúde, meio ambiente, entre outras. Parece que existia um projeto para vencer as eleições, mas inexiste um projeto claro de nação.

Como estratégia o presidente optou por atacar a imprensa e a oposição e tenta imputar a pecha de “inimigos da nação” a todos os que fazem em uma leitura crítica. As pesquisas de opinião pública apontam baixa popularidade e uma histórica avaliação de ruim ou péssimo. Até mesmo a fiel militância virtual começa a perder força, pois não dá para disfarçar ou justificar o injustificável.

O ano de 2020 será de eleições municipais, as primeiras sem coligações proporcionais. Muitos pré-candidatos ao legislativo já estão estruturados e, apesar de tão criticada, a política deve atrair milhares de neófitos. Os atuais legisladores tentam recuperar o tempo perdido, a ciranda partidária já está em movimento e terá seu ápice na janela entre 5 de março ao dia 3 de abril. Os alcaides estão empenhados em um calendário de obras com empréstimos preocupantes e ações midiáticas que procuram criar um cenário de cidade dos sonhos, quando a realidade em vários municípios é de grande pesadelo: Faltam criatividade e habilidade na gestão e na direção.

E o que as eleições têm de relação com o novo ano?  Na virada do ano, as pessoas saltam ondas, colocam roupas brancas com lingerie coloridas, fazem orações, promessas e desejam que tudo seja melhorar, mas sabem que, passadas as festas, vão encontrar os antigos problemas. Tem que pagar IPVA e IPTU com reajuste e os preços do gás de cozinha e combustível permanecem subindo.  Continua difícil garantir vaga na Creche e consulta na UBS. Os ônibus lotados, o trânsito caótico, os buracos e a falta de mobilidade urbana continuam castigando. No rol de desejos individuais os mais observados em cartões e mensagens são paz, saúde, prosperidade, segurança, moradia, emprego. A maioria depende de um empenho pessoal aliado a um esforço coletivo. Se as pessoas exercitarem o amor, o perdão e a solidariedade e se os governantes implementarem as políticas públicas necessárias, certamente poderão ser materializados e o ano terá tudo para ser melhor. Quer dizer que o voto na urna tem relação direta com os votos de réveillon

O saudoso jornalista e escritor Carlos Heitor Cony cunhou uma frase interessante: “Ano novo, vida velha. A vida é mais do que calendários, fusos ou órbita gravitacional”. Com essa consciência estreamos a agenda nova, viramos a folhinha e preparamos para mais uma jornada, tendo em mente que o que nos possibilitará um ano realmente novo, será nossos pensamentos, palavras, atos e até mesmo omissões. Assim fica a esperança de um Feliz Ano Novo, de novo.

Servidor público não é bode expiatório

João e Antônia estão jantando, acompanhando o telejornal e uma reportagem chama a atenção do casal. Ela aborda os privilégios do funcionalismo público e ouve um ministro, um prefeito e um economista dizendo que os servidores são os responsáveis pela quebra da previdência e pelo endividamento de estados e municípios. O casal não percebeu que nenhum representante dos servidores foi ouvido pelo repórter, mas concordaram com a abordagem. Eles passam a acreditar que o funcionalismo ganha muito e trabalha pouco.

A noite estava quente e resolveram levar sua única filha até a sorveteria próxima da residência. No caminho um motorista em alta velocidade bate em um buraco, perde o controle do veículo, colide em outro que estava estacionado e atropela a família.  Dois guardas municipais que patrulhavam a praça acionam o serviço de emergência. Uma unidade dos Bombeiros e duas ambulâncias do SAMU chegam e iniciam os atendimentos e agentes de trânsito organizam o fluxo. Policiais militares conduzem o autor até a Delegacia, onde escrivão e delegado colhem o depoimento e encaminham o sujeito ao médico legista para verificação de eventual embriagues. No local do acidente peritos da polícia científica registram cada detalhe. Na manhã seguinte trabalhadores estão recapeando e sinalizando o trecho.

A família é atendida na Unidade de Emergência do Hospital das Clínicas onde as equipes enfermagem e médica continuam os procedimentos necessários para salvar as vidas. Posteriormente radiologistas, fisioterapeutas e outros profissionais da saúde se empenham na recuperação plena de todos. Agentes do Serviço de Atenção Domiciliar colaboram nos curativos diários e profissionais da saúde da família realizam visitas frequentes. O pai aciona o INSS para receber o benefício previdenciário. Também procura um defensor público para acionar o motorista imprudente que foi processado civil e criminalmente. Ao longo dos processos e seus recursos, escreventes, promotores juízes e desembargadores são mobilizados.

A família passa por dificuldades econômicas e a esposa procura a assistente social do bairro. Os professores elaboram uma estratégica para a adolescente recuperar a matéria perdida durante o período de convalescência. Aos poucos foram restabelecendo a saúde e retomando suas rotinas.

Novamente o casal janta assistindo ao telejornal, que informa a possibilidade de greve dos servidores públicos. Segundo o repórter eles estão reivindicando reposição salarial e melhorias nas condições de trabalho. O casal acha um absurdo e começa a tecer pesadas críticas ao funcionalismo. A filha muito antenada foi a única que parou para refletir sobre quem seriam os tais grevistas e alertou aos pais. Eles perceberam que bombeiros, socorristas, policiais, professores, servidores da justiça e a grande maioria das pessoas que cuidaram daquela família desde o momento do acidente é formada por funcionários públicos.

Os governantes de plantão elegeram o funcionalismo público como inimigo preferencial. Insistem no equívoco de achatar salários, reduzir investimentos, perseguir e desestimular justamente os profissionais que diuturnamente estão a serviço da população, especialmente da porção mais necessitada. São os servidores que efetivam as políticas públicas, denunciam irregularidades e garantem o acesso da população aos seus direitos. É uma categoria que merece respeito e incentivo e não pode ser utilizada como bode expiatório da crise fiscal e das mazelas que o país enfrenta.

A Consciência Nossa de cada dia

Caro leitor vou contar com sua complacência para dedicar parte de seu precioso tempo em mais uma reflexão. Falar sobre o mês da consciência, mais do que uma necessidade é minha obrigação. E não falo apenas em causa própria, trago comigo uma multidão. Cansada da intolerância e da discriminação.

Desde quando o movimento negro passou a comemorar o dia de 20 de novembro, algumas vozes insistem em transformar a data em tormento. Ficam muito incomodados pregando que preconceito não existe. Estão cegos e não enxergam que o racismo e a discriminação ainda persistem. Falam em consciência humana e que todos são iguais, mas esquecem de que só nesta semana tivemos dezenas de casos, no Brasil e internacionais.

Começou com Taison e Dentinho no Campeonato Ucraniano, passou por dois torcedores do Galo Atleticano. Até o porta-voz do MBL foi acusado de agredir uma cozinheira e a empresa de terceirização não quer “gorda, nem negra” em suas fileiras. Um ou outro caso isolado, você poderia dizer. Mas olhe bem ao seu lado, preste atenção para compreender, na fila do desemprego, no salário reduzido, bala perdida, no barraco da favela, do jovem assassinado… É possível não ver? 131 anos se passaram e muita coisa mudou, mas existe algo enraizado, que nem o tempo levou.

A diferença na cor da pele foi usada para justificar a escravatura e apesar da abolição, continua em nossa cultura. Tem aqueles que não falam, mas no fundo acreditam e tem os que não se aguentam e logo exteriorizam. Ignoram que melanina é uma proteína que determina a nossa coloração e não pode ser usada como critério para contratação. Quantos empresários continuam com a indecência de empregar trabalhadores pela cor ou aparência. E o cabelo bom, quem é que tem? Como pode o cabelo determinar o futuro de alguém? Sendo crespo, cacheado até mesmo carapinha, se foi descolorido ou alisado a vida não é minha?

A discriminação racial direta está em nosso cotidiano e crime de ódio cada vez mais aumentando. O racismo institucional é menos direto e evidente. Um exemplo é a abordagem policial e desconfiança de seus agentes.  O Racismo estrutural está mais presente no seu dia a dia. Veja na sua empresa quantos negros tem chefia? A situação é bem pior quando falta a lucidez, tem os que gostam de humilhar e se desculpam com desfaçatez.

Se a educação é fundamental para o desenvolvimento da nação, garantir o acesso é o início da transformação. Por isso nem tudo está perdido é tempo de esperançar. Pela primeira vez na história, negros são maioria nas universidades públicas e vamos comemorar. Este é um reflexo das políticas de inclusão, tão combatidas por aqueles que se achavam donos da nação.

Quero convidar você para ser agente da mudança. Não classifique pessoas pela cor, respeite e idoso e a criança. Realize um debate crítico dentro de seu trabalho ou família. Nada de apelidos, tenha maturidade. Converse com seus amigos, sem rancor ou maldade. Lutar por um mundo melhor, sem preconceito e com mais respeito é obrigação de cada um, não importa se branco, amarelo ou negro. E como dizia Zumbi, nosso primeiro herói nacional: “É chegada a hora de tirar nossa nação das trevas da injustiça racial”.

Segurança do trabalho é missão de todos

Um tema de enorme relevância em nosso cotidiano e geralmente negligenciado é a segurança no trabalho. Talvez por esta razão o número de mortes causadas por acidentes do trabalho voltou a crescer em 2018, depois de cinco anos em queda.

Segundo dados analisados pelo MPT (Ministério Público do Trabalho), os acidentes do trabalho provocaram 2022 óbitos no ano passado, considerando apenas os empregados formais ou autônomos registrados no sistema da Previdência Social (os servidores públicos não foram incluídos na estatística). Além da morte, o país conta com milhões de afastamentos e sequelados em razão de lesões graves, sendo as principais: 734 mil casos de cortes e lacerações, 610 mil fraturas e 547 mil contusões e esmagamentos. 

Neste contexto, o presidente da República Jair Bolsonaro iniciou em junho um amplo processo de mudanças nas normas regulamentadoras (NRs) de segurança e saúde no trabalho. O argumento usado foi de garantir a segurança do trabalhador com regras mais claras e racionais, “capazes de estimular a economia e gerar mais empregos”.

Representantes do empresariado foram favoráveis à modernização das NRs com a tese de que a maioria tinha mais de 40 anos, além de serem complexas e burocráticas, não atendendo a realidade do mercado atual. Por outro lado dezenas de entidades, entre as quais, a Associação Nacional de Medicina do Trabalho, Instituto Trabalho Digno, Associação Nacional dos Magistrados da Justiça do Trabalho e Associação Nacional dos Procuradores do Trabalho lançaram o manifesto “Normas que Salvam Vidas: em defesa das NRs de Saúde e Segurança do Trabalho.” Expressando preocupação com a fragilização da legislação e das ações fiscalizatórias.

Buscando referências internacionais encontraremos a União Europeia, Austrália, Estados Unidos e Japão mantendo a legislação que defende a segurança no trabalho e possibilita a fiscalização. Por aqui, não é possível aceitar a tese de garantir sustentabilidade econômica com sacrifício da saúde e até mesmo da vida da força de trabalho.

Independente do posicionamento ideológico o ponto de convergência é que eventos, cursos, palestras e campanhas educativas são necessários e quando falamos em segurança do trabalho, destacamos a Comissão Interna de Prevenção de Acidentes – CIPA, fundamental para a redução das tristes estatísticas. O chamado cipeiro possui olhar diferenciado capaz de identificar os riscos do processo de trabalho. Ele participa da elaboração de mapas de riscos, da divulgação de informações sobre segurança e saúde no trabalho e cobrança do empregador para as providências necessárias para garantir um ambiente de trabalho seguro.  Por seu lado, os empregadores possuem papel fundamental ao proporcionar as condições adequadas.

Ribeirão Preto conta com duas leis importantes: a Lei 13870/2016 que instituí a Semana de Prevenção de Acidentes e Saúde do Trabalhador e cria o Dia Municipal em Memória das Vítimas de Acidentes de Trabalho e Doenças Ocupacionais e a Lei 13778/2016 que cria a campanha de prevenção de acidentes do trabalho e de doenças ocupacionais, denominada “Abril Verde” que devem ser efetivadas.

A população em geral, os poderes públicos e a sociedade civil organizada precisam estar conscientizados quanto à importância da prevenção dos acidentes de trabalho e doenças ocupacionais, para evitar as perdas financeiras, mas principalmente para a preservação da integridade física e da vida.

Uma Santa Entre Nós

Os cristãos católicos estão em festa com a canonização da primeira santa nascida no Brasil. Para receber o título foi necessária a comprovação de dois milagres, após um processo longo e cuidadoso, mas mesmo antes de ganhar a devoção dos altares, Irmã Dulce já era reconhecida como santa e chamada de “O Anjo Bom da Bahia”.

Acostumados a cultuar personalidades que viveram em séculos e realidades distantes, os católicos experimentam agora a sensação de ver reconhecida a santidade de uma contemporânea. Maria Rita de Sousa Brito Lopes Pontes nasceu em 26 de maio de 1914 e faleceu em 13 de março de 1992. A capital Salvador foi seu universo, mas sua fama se espalhou por todo o mundo.

Milhares de pessoas que tiveram a oportunidade de conhecê-la dão testemunhos de sua vida irretocável e inspiradora e da felicidade de ter uma santa entre nós. Neste período de intolerância suas palavras ecoam como um sinal de alerta: “Procuremos viver em união, em espírito de caridade, perdoando uns aos outros as nossas pequenas faltas e defeitos. É necessário saber desculpar para viver em paz e união”.

Tendo abraçado a vida religiosa muito nova, Dulce soube como poucos enxergar e viver as dimensões do amor ao próximo. Aos 22 anos fundava, com Frei Hildebrando Kruthanp, a União Operária São Francisco, primeiro movimento cristão operário da Bahia. Já no ano seguinte, ambos criavam o Círculo Operário da Bahia com a visão de difundir o cooperativismo, a promoção social e cultural e a defesa dos direitos. Em 1939 inaugurou o Colégio Santo Antônio voltado para os operários e seus filhos.

Um dos fatos mais conhecidos de sua missão foi a invasão de casas abandonadas para abrigar doentes recolhidos pelas ruas. Logo transformaria o galinheiro do convento em Albergue e posteriormente no Hospital Santo Antônio. Atualmente as Obras Sociais da Irmã Dulce estão entre as maiores instituições filantrópicas do Brasil, com cerca de quatro milhões de atendimentos ambulatoriais por ano a usuários SUS.

Irmã Dulce tinha uma capacidade invejável de articulação com empresários e políticos e sua preocupação exclusiva com os assistidos, impedia que fosse rotulada pelos grupos rivais. Aliás, são suas duas frases célebres: “A minha política é a do amor ao próximo” e “Não entro na área política, não tenho tempo para me inteirar das implicações partidárias. Meu partido é a pobreza”.

Historicamente a pobreza foi utilizada por aqueles que buscam ascender politicamente e pelos que buscam pousar como filantropos com interesses pessoais. Em uma sociedade excludente e que amplia a desigualdade e a miséria, combater a pobreza sem qualquer tipo de interesse que não seja a promoção da justiça social é uma tarefa para poucos.

Certamente, mais do que ser cultuada através de uma foto, uma imagem ou escultura, Irmã Dulce dos Pobres desejaria que os fiéis praticassem o exercício do amor e do servir. Certa feita em uma entrevista ela declarou: “A religiosa por si mesma deve ser um exemplo. Não somos anjos nem santos, porém devemos fazer o máximo para que a nossa vida seja um exemplo”.

Vivendo na era da Fake News

Entre os inúmeros pensamentos de Cicero, um dos mais famosos filósofos da antiguidade, uma frase permaneceu até pouco tempo: “Ninguém acredita em um mentiroso, mesmo quando ele diz a verdade”. Lamentavelmente o homem contemporâneo está mudando essa máxima, preferindo adotar a fraude como verdade absoluta.

Observemos o indivíduo que ao posar para uma foto murcha a barriga, usa filtros e recursos de edição e publica uma imagem perfeita, ilusória e totalmente distanciada da realidade. Certamente receberá milhares de elogios e compartilhamentos, inclusive de quem sabe que ele não é como na foto. Existem aqueles que utilizam as mais modernas maquilagens para transparecer uma beleza que não resistirá ao primeiro banho, mesmo assim despertam o desejo e admiração dos que sabem que aquilo é irreal, mas preferem acreditar na trama.

Na política não é diferente e os lobos conseguem artifícios que os transformam em lindos e meigos cordeiros. As últimas eleições nos Estados Unidos e no Brasil foram inundadas pelas chamadas “Fake News”. Foi um verdadeiro bombardeiro de notícias falsas, imagens manipuladas e postagens montadas para desconstruir pessoas, carreiras, discursos e formar celebridades, mitos e salvadores da pátria. Hoje restou evidenciado a grande farsa e a realidade cruel está estampada para quer quiser ver, mas como ensina o ditado: “O pior cego é aquele que não quer enxergar”.

Na realidade local não é diferente, quem circula pelos diversos municípios brasileiros encontrará peças publicitarias que transformam localidades atoladas em problemas, sendo divulgadas como verdadeiros paraísos de prosperidade e eficiência administrativa. Algumas chegaram a ter celebrações pelos mil dias de governo, que lembravam as fábulas das mil e uma noites. Como diz outro adágio popular: “maior mentiroso é aquele que acredita na própria mentira” e no próximo ano, certamente a maioria dos alcaides buscará a reeleição se apresentando como os melhores representantes da nova política.

O problema não é só de quem tem a coragem de sentar diante de um computador e passar horas forjando um post ou notícia falsa e sim dos milhões de cegos intelectuais que, lá no fundo, sabem que é mentira, mas preferem professá-la como verdade, replicando-a em suas redes. Se antes poderíamos ser manipulados por alguns setores da imprensa, atualmente somos escravizados pela massificação da lorota nas mídias anti-sociais, entupidas por manchetes e notícias mocas que não resistiriam a trinta segundos de lucidez.

É triste presenciar o bom cidadão se prestando ao papel de multiplicador de teorias absurdas e lesivas aos princípios básicos do respeito, tolerância, cordialidade, dignidade e humanidade. Ao propagar uma fake news, muitas vezes pessoas que vivem arrotando moralidade em suas redes, estão praticando um crime de maior poder ofensivo do que os que elas criticam quando realizados por outrem.

Precisamos enfrentar o desafio de construir uma sociedade que seja bem informada e dotada de senso crítico para, ao acompanhar os fatos, fazer o devido juízo de valor e adotar posicionamentos que não sejam viciados ou deturpados.

Sim, o Palmeiras tem mundial!

Não é brincadeira, tão pouco provocação. Diferente dos milhões de torcedores das demais agremiações que cotidianamente compartilham vídeos e memes com a frase: “O Palmeiras não tem mundial” em franca provocação aos palmeirenses, que celebram o campeonato de 1951, estamos aqui para celebrar um título que certamente entrará para a história.

Durante a cerimônia promovida pela FIFA, em Milão, Lionel Messi foi o vencedor do prêmio The Best, sendo eleito pela sexta vez o melhor jogador do mundo, igualando o recorde da brasileira Marta. No ano em que o futebol feminino conseguiu seu maior protagonismo, Megan Rapinoe, a melhor jogadora do mundo em 2019, fez um discurso militante convocando os atletas profissionais a usarem o esporte para combater o racismo, a homofobia e todas as formas de preconceito. Segundo ela a mobilização dos esportistas pode mudar o mundo para melhor. Mas e o título do Palmeiras?

Como não poderia deixar de ser, o título mundial foi conquistado por integrantes da “torcida que canta e vibra” e, entre a legião palmeirense, dois emocionaram o mundo: Silvia Grecco e o garoto Nickollas de 12 anos, descobertos pelo repórter Marco Aurélio Souza que fez uma matéria sobre a mulher que acompanha seu filho cego em todos os jogos do verdão no Allianz Parque e no Pacaembu. A mãe narra os jogos e faz áudio descrição possibilitando que o adolescente tenha todas as informações necessárias para curtir sua paixão pelo futebol.

Ao ser eleita a melhor torcedora do mundo, Silvia dedicou o título a um concorrente ao prêmio, o uruguaio Justo Sánchez, que apesar de torcer pelo Cerro, passou a acompanhar os jogos do Rampla Juniors como homenagem a memória de seu filho, que morreu na volta de uma viagem após acompanhar uma partida do time de coração. A brasileira aproveitou toda a visibilidade do prêmio para abrir os olhos do mundo do futebol sobre a existência das pessoas com deficiências e suas necessidades de amor, respeito e inclusão.

A história de carinho e dedicação é mais linda do que se possa imaginar. Nickollas poderia ser apenas um número perdido em estatísticas. Nasceu prematuro, autista, com deficiência visual e, provavelmente, estaria condenado a uma vida de exclusão. Após quatro meses de internação e, depois de ser rejeitado por doze casais, foi adotado por Silvia. Sempre ignorados, durante anos foram ao estádio e repetiram o mesmo ritual, até que o olhar atento de um repórter esportivo possibilitou que a história fosse compartilhada com o Brasil e agora com todo mundo.

Além dos palmeirenses, milhares de torcedores de diversos times foram mobilizados para votar na comovente família brasileira. Durante a premiação, Silvia foi ovacionada, poucos não aplaudiram, talvez porque suas mãos estivessem ocupadas enxugando as lágrimas. Seu título é individual, mas inspira o coletivo. Que seu exemplo seja multiplicado por país, irmãos, amigos, enfim por todos os apaixonados por futebol.

Ah! Antes que esqueça, agora o Palmeiras tem mundial.

Quando conquistaremos o pódio da inclusão?

Os Jogos Parapan-Americanos de Lima, no Peru, entraram para a história do esporte como a melhor campanha da delegação brasileira. Foram conquistadas 308 medalhas, sendo 124 ouros, 99 pratas e 85 bronzes. Nosso hino nacional nunca foi tão tocado em competições internacionais. Um das estratégias foi levar a maior delegação de todos os tempos com 337 desportistas e 513 profissionais.

Daniel Dias continuou soberano na natação vencendo seis provas e chegando a incrível marca de 33 medalhas de ouro na competição continental. Belas histórias foram reveladas como a dos irmãos paraenses, Josermárcio, do goalball e Lucilene, da Natação, ambos têm atrofia do nervo óptico, doença que causa uma perda irreversível da visão.

Enquanto alguns atletas dirigem o foco para as próximas competições mundiais de suas modalidades e para as Paralimpíadas 2020, em Tóquio, outros retornaram para as extenuantes rotinas de treinamento e superação de infinitas barreiras, já que o mesmo país que vibra com o êxito proporcionado pelas competições é o que excluiu milhões em ações cotidianas.

Algumas pessoas ficaram surpresas com a quantidade de paratletas e somente a invisibilidade proporcionada pela exclusão social é capaz de fazer com que esqueçamos que, segundo o IBGE, o Brasil possui 45 milhões de pessoas com algum tipo de deficiência física.

Discriminação e preconceito são as barreiras invisíveis e uma pesquisa realizada em 2016 apontou que 71% dos atletas paraolímpicos do Brasil já foram alvo de preconceito social. As maiores vítimas foram mulheres entre 20 e 29 anos nas regiões Norte e Centro-Oeste. Existem, ainda, as barreiras físicas. A falta de acessibilidade, por exemplo, é um problema cultural que traz transtornos diários e impede que milhares de brasileiros tenham o direito de ir ao trabalho, escola ou mesmo praticar lazer, prejudicados pela ausência de uma rampa, por uma calçada mal conservada e até mesmo por motoristas que insistem em utilizar as vagas reservadas.

O processo de inclusão inclui o tratamento adequado, sendo recomendado preferencialmente o uso do termo pessoa com deficiência, adotado pela Organização das Nações Unidas que definiu: “pessoas com deficiência são aquelas que têm impedimentos de natureza física, intelectual ou sensorial, os quais, em interação com diversas barreiras, podem obstruir sua participação plena e efetiva na sociedade com as demais pessoas”.

No mercado de trabalho, há 28 anos, temos a Lei de Cotas para Deficientes que determinas às empresas com 100 ou mais funcionários, a contratação entre 2% e 5% de trabalhadores com deficiência. Ocorre que, segundo dados do Ministério da Economia, o percentual nunca passou de 1%.

As diferenças e exclusões continuam presentes nas atividades culturais, sociais, religiosas, e econômicas. É claro que as vitórias esportivas devem ser bastante celebradas, mas nosso país continua muito distante de alcançar o pódio da inclusão plena das pessoas com deficiência.

Preservação ambiental não é fogo de palha

O fogo está no foco e os debates estão literalmente acalorados.  Por um lado aqueles que vaticinam o aumento do aquecimento global e a destruição de considerável parte de nossa biodiversidade e por outro os que enxergam que queimadas e desmatamento são fatos corriqueiros e habituais que estão sendo utilizados politicamente para abalar a credibilidade do governo atual.

Na guerra de informações, fofocas e fake news, tudo vale, desde ativistas ambientais postando fotos equivocadas em suas mídias sociais até presidente acusando ONG´s, sem, no entanto, apresentar provas. A novidade documentada foi uma reportagem do Globo Rural que apresentou ofício do Ministério Público do Pará alertando ao IBAMA sobre a possível realização do “Dia do Fogo”, onde cerca de 70 pessoas entre, produtores rurais, comerciantes e grileiros estariam organizando, via WhatsApp, ato de apoio ao presidente da república pelas medidas que atenuam o poder de fiscalização. A mesma reportagem traz o depoimento de uma pecuarista acusando servidores da área ambiental federal de serem os responsáveis pelas queimadas.

Durante a campanha eleitoral o candidato Bolsonaro criticou ambientalistas e prometeu acabar com a “indústria das multas ambientais”, além de retirar o Brasil do Acordo de Paris pelo Clima. Recentemente publicou Decreto criando os núcleos de conciliação ambientais que, entre outras atribuições, poderá conceder descontos, parcelamentos e até conversão das multas ambientais em serviços de preservação, melhoria ou recuperação do meio ambiente, medida vista por opositores como um verdadeiro “balcão da impunidade’.

Apesar de contestados pelo governo federal, os dados apresentados pelo INPE e confirmados pela NASA apontam considerável aumento do desmatamento e do número de queimadas e cientistas esclarecem que um está diretamente ligado ao outro. Além das queimadas, a extração ilegal de madeira e a expansão pecuária desenfreada proporcionam erosão do solo, perda da biodiversidade, extinção de rios e nascentes, desertificação, perda de recursos naturais e alteração no clima.

Alguns representantes do agronegócio já tentam fazer o governo compreender que a política ambiental está incluída na política comercial global. Os consumidores estrangeiros, notadamente da Europa, exigem boas práticas na produção e os acordos comerciais recém-entabulados podem sofrer consideráveis abalos.

A preservação ambiental não é só fogo de palha, está nas agendas prioritárias das nações que desejam aliar desenvolvimento econômico com qualidade de vida. A floresta amazônica é nossa e o país precisa manter sua soberania, mas não podemos olvidar de um compromisso que é missão de todos os povos e nações. O que está em pauta não é defender ou acusar o governo. É preservar a vida, em todos os seus aspectos.

Para arrefecer a contenda seria necessário despir-se dos mantos ideológicos, renunciar aos interesses econômicos, sair do conforto urbano de uma sala com ar condicionado e água mineral conservada em refrigerador e buscar conhecer a verdadeira realidade da região amazônica. Após visitar as áreas destruídas, formar um juízo de valor e posicionamento conscientes, adotar gestos transformadores e, quem sabe, procurar sentar-se à sombra de uma árvore, depois mergulhar as mãos em uma nascente e tomar um bom gole de água fresca, enquanto ainda é possível encontra-las.

Agosto lilás: uma luta de todos nós

Camisetas, laços e prédios públicos iluminados com a cor lilás indicam que estamos vivenciando o mês de conscientização pelo fim da violência contra a mulher, onde toda sociedade é convidada a participar dos esforços para redução da triste realidade.

A violência contra a mulher está presente em nosso cotidiano, especialmente no âmbito das famílias. As estatísticas são alarmantes e sabe-se que a maioria dos casos ainda permanece escondida. Esse fenômeno já é considerado problema de saúde pública capaz de deixar traumas permanentes às vítimas e está presente em todas as classes sociais e credos religiosos. O problema surge da cultura de discriminação que desenvolve estereótipos que tentam justificar a inferioridade em relação aos homens, muitas vezes atribuindo a culpa à própria vítima.

Quando uma morte é noticiada, por alguns instantes existe uma comoção que logo se transforma em esquecimento ou banalização. O que não se observa é que, antes de chegar ao óbito, a mulher passa por uma série de situações e sofre diversos tipos de violência entre as quais física, psicológica, moral, sexual, digital, patrimonial e até a institucional.

Em grande número dos casos a mulher possui envolvimento emocional ou afetivo com o agressor. Isso, aliado à dependência econômica pode ser decisivo para impedir ou dificultar a realização de denúncias e a quebra do vínculo violente. Muitas mulheres acreditam que são culpadas e não conseguem reconhecer as situações de abuso a que são submetidas.

Geralmente a sociedade cobra atitudes das mulheres e tece críticas às que não abandonam seus parceiros. Antes de apontar o dedo é necessário compreender possíveis razões para essa aparente passividade. Inicialmente existe aquela velha esperança de que o parceiro agressivo mudará seu comportamento, depois tem a questão da vergonha da exposição e o temor de julgamentos. As barreiras familiares e financeiras também são presentes, aliadas à falta de conhecimento sobre a existência de uma rede de proteção completando o triste quadro.

Não podemos esquecer a crueldade de agressores, especialmente companheiros, que impõe torturas psicológicas materializadas por ameaças contra a mulher, seus filhos ou familiares. As agressões verbais e mesmo as agressões físicas, que algumas vezes não deixam marcas aparentes, vão minando as forças e fragilizam a vítima de tal sorte que permanece passiva e calada.

Os profissionais da segurança, saúde, educação e assistência social possuem um papel importante na detecção, orientação e combate à violência, pois muitas vezes a mulher lança pedidos de socorro imperceptíveis. Estruturar o acolhimento com uma escuta qualificada, sem julgamentos ou discriminação, dentro de um atendimento humanizado que garanta privacidade, sigilo e confiança pode ser determinante para a preservação da integridade física e da própria vida.

Embora muitos não saibam, existe uma rede protetiva integrada pelas Unidades de Saúde, Defensoria Pública, Ministério Público, Delegacia de Defesa da Mulher, Polícia Militar e Guarda Civil Municipal (Patrulhas Maria da Penha) entre vários, capaz de acolher e proteger as vítimas.  Ribeirão Preto conta ainda com o NAEM – Núcleo de Atendimento Especializado à Mulher, que trabalha de forma articulada com outros serviços socioassistenciais e órgãos do Sistema de Garantia de Direitos. Durante 24 horas também pode ser acionado o disque denúncia: 161.

O cidadão comum também pode auxiliar, sempre ouvindo com atenção e sem julgamentos, perguntando para a vítima como ela desejaria ser ajudada, valorizando os sentimentos, colocando-se em seu lugar e compreendendo que dentro de seu trabalho, de seu circulo de amizades ou grupo social pode, com pequenas atitudes, ser um grande agente de transformação.