Por uma sociedade mais acolhedora

Ribeirão Preto retoma a discussão sobre as pessoas em situação de rua. Circulando pela cidade a sensação é que a quantidade aumentou. Mas o que leva uma pessoa a viver assim? O Ministério do Desenvolvimento Social e Combate à Fome patrocinou uma pesquisa que revela o perfil dos moradores de rua brasileiros. A conclusão foi que as pessoas em situação de mendicância são em sua maioria homens jovens e alfabetizados. Os motivos para abandonar suas residências: problemas com álcool ou drogas, perda do emprego e desavenças com a família.
Falando em conflitos familiares, a pesquisa derruba a teoria de que moradores de rua são pessoas originárias de outras cidades e sem laços locais de família. A maioria, ou seja, 58% se declarou originária da mesma cidade ou da região. Enquanto 51,9% garantiu possuir algum parente morando na mesma cidade. Outros dados interessantes: 48,4% estão fora de casa há mais de dois anos. Dois em cada três (69,6%) dormem na rua e 22% costumam dormir em albergues ou outras instituições.
Existem instituições filantrópicas, a maioria ligada a denominações religiosas que reproduzem na atualidade os ensinamentos de Jesus ao apresentar a parábola do Bom Samaritano. Por outro lado, para atender essa população, apenas 2,8% dos municípios possuíam CENTRO POP – Centro de Referência Especializado para População em Situação de Rua. Vale dizer que são 175 unidades em 154 municípios. Para atendimentos em geral no período entre 2009 e 2013, o Brasil ampliou em 44,9% o número de CRAS – Centros de Referência em Assistência Social.
Creio que os gestores públicos e a sociedade civil devem se atentar para a opção que o país deve fazer. Atacar as causas ou efeitos? Se o consumo de álcool ou droga é o primeiro motivo para a pessoa viver na rua, devemos questionar efetivamente o que está sendo feito para combater o consumo desses produtos lícitos como a bebida entre amigos ou ilícitos como as drogas proibidas. A geração de emprego e renda é a resposta para a segunda causa, mas a terceira não depende do Estado. O problema está em casa, no seio da família.
Não há como negar que a noção de família está mudando sem que a coletividade reflita sobre isso. Antes cabia ao núcleo familiar a tarefa de amar, educar, manter a harmonia no lar e preparar as pessoas para o trabalho e para a vida em comunidade. Aos poucos os pais se afundaram no trabalho e foram abdicando do seu papel, delegando essas funções, inclusive para o poder público. O resultado foi uma sociedade cada vez mais egoísta e excludente, sem espaço para diálogo, perdão, acolhimento e auxílio.
Historicamente a miséria humana foi usada como forma de exploração política e dominação social. Não podemos permitir que isto continue acontecendo, especialmente às vésperas de eleições. Precisamos de um debate maduro, sereno, sincero e qualificado. É necessário avançar a partir de um envolvimento coletivo. As instituições que promovem filantropia precisam aliar suas ações com os poderes públicos de todas as esferas, em sintonia com a Política Nacional de Assistência Social.
A imprensa e as mídias sociais devem desempenhar papel fundamental nesse processo e se contrapor à nociva e equivocada exploração que a televisão brasileira vem realizando. Diariamente observamos emissoras produzindo programas sensacionalistas em que a miséria alheia, a privacidade e as dificuldades dos indivíduos e das famílias são expostas em rede nacional para aumentar audiência.
Compete a cada um de nós a reprodução da atitude do Bom Samaritano de acolher a todos, independente de sexo, cor, raça ou religião desenvolvendo atitudes individuais e coletivas para evitar que novos excluídos surjam. Caso contrário a situação pode se tornar insustentável.

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