O centro é de todos

Nos últimos anos o Brasil está experimentando várias mudanças, algumas em sintonia com o que ocorre com o mundo e o preocupante êxodo rural é uma delas. Segundo dados do IBGE, mais de 80% dos brasileiros residem nas cidades. Ocorre que a maioria delas cresceu de modo desordenado gerando uma série de problemas.
Outra mudança foi nos centros urbanos. Historicamente as famílias mais abastadas optavam por residir na área central que era a mais nobre e possuía as repartições públicas, atividades comerciais e de prestação de serviços. Posteriormente, mudaram para bairros imponentes e finalmente para os luxuosos condomínios.
Em vários municípios a região central ficou feia e principalmente no período noturno, traz uma sensação de abandono e insegurança, em Ribeirão Preto não foi diferente. Com a expansão de centros comerciais e shoppings, aqueles empreendedores conseguiram reunir cinemas, diversão, gastronomia, praças e opções de lazer e compras em um só local, atraindo milhares de pessoas.
A resposta do centro foi tímida e lenta. Somente depois da troca de iluminação e reforma das praças XV de Novembro e Carlos Gomes e restauração do Centro Cultural Palace, surgiu um novo vigor, que encontra seu ápice com a conclusão das obras do novo calçadão. Agora se inicia uma fase muito importante que é a regulamentação do uso daquele importante espaço público.
Nesta semana, por meio da Comissão Especial de Estudos que acompanha a obra, a Câmara Municipal realizou uma Audiência Pública, no Auditório Meira Júnior. Na oportunidade, foram ouvidos os moradores da região que apresentaram suas dúvidas e reivindicações. Mais de cem sugestões que serão apreciadas pela CEE e pelos técnicos da Secretaria Municipal de Planejamento, responsáveis pela elaboração de esboço de projeto de lei.
Uma preocupação foi quase unânime, algumas pessoas já estão destruindo o piso, os bancos e os equipamentos. A perturbação do silêncio e sossego dos moradores também foi registrada. Os rostinhos e olhares daquelas senhoras inseguras sobre o futuro foram marcantes.
Um novo centro exige uma nova postura. Desta forma os princípios básicos de educação deverão ser observados, como por exemplo, não jogar chicletes no chão, não descartar lixo em locais indevidos, reduzir o volume do som, estacionar no local correto, respeitar as prioridades de idosos e de pessoas com deficiência, etc. Os comerciantes terão dupla missão, pois além de cuidar dos seus clientes, deverão ser guardiões do mobiliário urbano instalado.
Para o centro recuperar o seu glamour, existem outros desafios que carecem de superação. A polêmica sobre a implantação de dispositivos para abrigar os passageiros do transporte coletivo e os riscos à estrutura da Catedral Metropolitana merece um debate desapaixonado e objetivo. Preservar aquele patrimônio deve ser prioridade, da mesma forma que proporcionar acomodações dignas para quem aguarda nos pontos também. Quanto ao leito carroçável, salvo melhor juízo, existem tecnologias capazes de recompor o pavimento com materiais que impeçam a movimentação do solo e vibrações.
Não podemos esquecer a reforma ou restauração de tesouros arquitetônicos, entre as quais, o Palacete Jorge Lobato e o Hotel Brasil. Também intervenções para dar finalidade social às construções abandonadas como o antigo Açougue Oranges.
O Centro não possui donos, ele é de todos e assim todos podem utilizá-lo, mas também são obrigados a preservá-la. Precisam conviver em harmonia resefências e atividades comerciais.
Garantir o direito de ir e vir, ouvir música, comprar, curtir a vida, não pode prejudicar o sagrado direito ao sono e descanso. Esta convivência pacífica se dará a partir do momento em que todos se conscientizarem que a vida em sociedade exige um mínimo de sacrifícios e respeito aos direitos individuas e coletivos. Aliás, um dos conceitos de urbanidade é justamente o “Cumprimento das regras de boa educação e de respeito no relacionamento entre cidadãos”.
O Centro é nosso, mas além de revitalizar ruas, praças e calçadas, devemos revitalizar nossos corações, mentes e almas para uma convivência com maior dignidade e cidadania.

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