É tempo de ser criança

O dia das crianças foi instituído por lei em 1920, mas só emplacou como comemoração em 1960 quando duas grandes empresas lançaram uma promoção para impulsionar suas vendas. A partir de então o espírito consumista da data prevaleceu.
Se voltarmos no tempo, chegaremos até a época de Cristo quando as crianças não eram valorizadas, sendo proibidas de muitas atividades. O relato bíblico aponta Jesus reunido com seus discípulos e atendendo à comunidade quando algumas crianças desejando se aproximar são imediatamente afastadas. Jesus, no entanto, orienta: “Deixai vir a mim estas criancinhas e não as impeçais, porque o Reino dos céus é para aqueles que se lhes assemelham”. De modo didático ele apresenta a necessidade de que os homens tenham a pureza de coração das crianças e, ao mesmo tempo, valoriza os pequeninos.
Existem outros fatos marcantes que registram a importância que as pessoas dedicam ao tema. Ao cobrar o penalti contra e equipe do Vasco da Gama em pleno Maracanã lotado, Pelé, o Rei do Futebol marcou o seu milésimo gol e entre lágrimas, beijou a bola e disse: “Vamos proteger as criancinhas”. Na época muitos não entenderam, alguns até criticaram, mas se as crianças de 1969 fossem bem protegidas, amadas e educadas, certamente teríamos uma geração melhor nos dias atuais.
Em um dos seus discursos, o Padre Francisco citou algumas das riquezas que as crianças apresentam para os adultos, como a pureza no olhar e a ausência de malícia. O fato de não terem dureza de coração e a capacidade de sorrir, chorar, dar e receber ternura. Pena que não temos a capacidade de parar para observar essas preciosidades.
A sociedade moderna nos impôs um ritmo de vida alucinante e muitas vezes nos equiparamos a um android ao fazer tudo automaticamente. Já acompanhamos relatos de pais que tão preocupados em trabalhar para garantir o melhor para os filhos, chegam a esquecê-los trancados em automóveis. Tem os que deixam os filhos sozinhos em casa por não encontrar familiares ou creches públicas. E aqueles que perdem os melhores anos de convivência e não observam o crescimento dos pequenos, pois estão empenhados em lhes garantir o futuro.
Não vamos dedicar muito espaço para reproduzir as manchetes cotidianas de pais que atiram filhos pela janela, tão pouco de recém-nascidos deixados em caçambas e cestos de lixo. Como explicar o inexplicável? Desespero ou ausência de amor?
Nosso país já conseguiu elaborar uma abrangente legislação em favor das crianças, resta agora materializá-la. Do sistema de roda das Santas Casas para amparar crianças abandonadas até o Estatuto da Criança e do Adolescente muito se avançou. Enquanto isso milhares de crianças cresceram sem conhecer seus verdadeiros pais, sem carinho, sem amor, sem afeto e sem oportunidade. Muitas foram adotadas e encontraram nas famílias adotivas a chance de uma vida, no sentido pleno da palavra.
Ao analisar indicadores nacionais, vamos encontrar dados contraditórios em relação às nossas crianças. No ano de 2012 nasceram 340.000 bebês prematuros no Brasil, ou seja, 931 por dia ou 40 por hora, o dobro do índice de alguns países europeus. Por outro lado, a taxa de mortalidade caiu 73% nos últimos anos. Enquanto, a proporção de casais sem filhos cresceu 33% de 2004 e 2013, o número de recém-nascidos filhos de presidiárias cresceu de modo vertiginoso. Se antes nossas crianças eram desnutridas, hoje são obesas. A redução da natalidade já preocupa setores da economia.
Avançamos muito, mas precisamos continuar avançando muito mais em políticas públicas voltadas aos pequenos. As famílias também precisam fazer a sua parte e não tentar atribuir ao Estado todas as obrigações. Aliás, não existe um instrumento legal que obrigue as pessoas a se amarem, tão pouco criar algo como a Secretaria do Afeto ou o Ministério do Amor Familiar.
Neste dia das crianças vamos reservar espaço em nossa agenda para a contemplação. Sim, alguns instantes para observar os gestos, ações, palavras e espontaneidade de nossos filhos, netos, sobrinhos, vizinhos, conhecidos ou até mesmo estranhos. Guardadas as devidas proporções e cuidados, vamos procurar imitá-los.
É tempo de voltar a sorrir, brincar, reaprender a valorizar as coisas simples, enxergar o belo, desarmar os espíritos, acreditar no próximo e na vida! É tempo de ser criança!

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