Desculpe o transtorno. Estamos em reforma

O processo de reforma não é fácil. Começa com a esposa reclamando de necessidades que geralmente o marido não percebe. Chegam os filhos, a sogra, o cunhado, a empregada, no final até o vizinho está dando opinião sobre o que precisa ser mudado. Então, são consultados alguns pedreiros, pintores, gesseiros, carpinteiros, serralheiros e demais profissionais que oferecem um rol tão variado de opiniões e valores que você fica cada vez mais confuso, mas recebe a oportunidade de escolha.
Reformar um imóvel residindo no mesmo é um transtorno e a empolgação dos primeiros dias transforma-se em irritação pelo prazo que não é cumprido. Soma-se o aumento nos custos, a qualidade do acabamento e outros detalhes que vão irritando de tal forma que muitos se arrependem de terem iniciado a aventura e ao final os resultados nem sempre são os aguardados.
No setor público as reformas são intermináveis e muitas se transformam em anomalias que jamais cumprem os propósitos para os quais foram concebidos. Na iniciativa privada, especialmente nas atividades comerciais ou de prestação de serviços, muitas vezes as reformas são iniciadas por imposição de órgãos fiscalizadores que exigem itens de vigilância sanitária, por exemplo. Para dar maior legitimidade a tal operação, é comum a utilização de placas com os dizeres do tipo “Desculpe o transtorno, estamos em reforma para melhor atendê-los”.
Na política, realizar reformas amplas também é muito complicado, especialmente quando os envolvidos são os responsáveis pelas mudanças. Vejamos o que ocorre atualmente no Brasil. Ao assumir seu segundo mandato, a presidente Dilma Rousseff sugeriu a criação de uma Assembleia Constituinte para fazer a reforma política, proposta duramente contestada por especialistas em direito constitucional e até Ministros do Supremo Tribunal Federal. Assim, o próprio Congresso atual ficou encarregado das mudanças. Passado pouco mais de um ano e com uma tentativa de “tratoragem” do presidente da Câmara dos Deputados, Eduardo Cunha, observamos que até agora pouco se mudou. A explicação talvez seja pela ausência de um item muito importante em qualquer reforma política: a participação popular. Passada a excitação das grandes manifestações de rua, não ocorreu consulta prévia, tão pouco debate ampliado sobre as diversas propostas que seriam apresentadas no Congresso Nacional. Manter a eleição proporcional com lista aberta, mudar para o proporcional com lista fechada, optar pelo Distritão ou Voto Distrital Misto. Manter o Financiamento Privado ou definir o Financiamento Público de Campanha, são temas que fogem ao cotidiano das pessoas, especialmente as mais simples. Seria fundamental informar, esclarecer e proporcionar ampla discussão do que efetivamente seria o melhor para os municípios, estados e o próprio país.
A glamorização e a introdução de personagens midiáticos puxadores de voto como forma que alavancar coligações, secundarizou o debate em torno das ideias. A utilização econômica das legendas afastou a identidade político-ideológica de tal forma que nem sempre os melhores ou aqueles que efetivamente a população deseja são os eleitos.
Resta claro que o atual modelo eleitoral necessidade de melhorias, especialmente para garantir a maior participação de todos. Também devemos perseguir alternativas que nos conduzam a elevação do nível político das campanhas eleitorais. Mas isso somente será possível com despojamento e coragem para os enfrentamentos necessários. Quebrar velhas estruturas, fechar ralos, corrigir distorções, enfim fazer o que precisa ser feito. Todos precisam se mobilizar nesse esforço, conscientes dos transtornos de consertar um país que precisa de reformas.

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