A síndrome da Antropofagia política​

Durante muitos anos o brasileiro foi impedido de um dos exercícios mais salutares e importantes da democracia: o direito ao voto. No modelo atual temos eleições a cada dois anos, o que representa um grande avanço. Ocorre, porém, que em razão disso estamos formando uma classe política que se preocupa mais com a eleição do que com a governança. Assim, a maioria vive em uma campanha permanente onde cada ato, cada gesto, cada manifestação, parece estar sempre vinculado não ao que o país, estado ou município precisam, mas sim ao que renderá maiores bônus eleitorais.
Com o advento da explosão midiática, associado às transmissões das sessões parlamentares pela televisão e a fácil produção e propagação das chamadas mídias sociais, passamos a conviver com um fenômeno curioso. A fabricação de personagens grotescos que no seu cotidiano pensam e agem de uma maneira, mas quando se colocam diante das lentes de uma emissora de TV ou de um simples aparelho celular que grava imagens, transformam-se em criaturas totalmente diferentes.
O Brasil experimenta algo que preferi intitular de Síndrome da Antropofagia Política. Com a máxima vênia aos Tupinambás, indígenas que povoavam nosso país antes do descobrimento e que tinham no ato de devorar o semelhante seu principal ritual. A diferença é que eles não guerreavam por status, territórios ou riquezas. Simplesmente aprisionavam e comiam o inimigo para absorver sua força.
Atualmente em várias câmaras municipais, assembleias estaduais e no próprio Congresso, observamos práticas que depõe contra a ética, o decoro e mesmo a razoabilidade da lhaneza que deve permear as relações interpessoais no parlamento, mesmo entre concorrentes ou inimigos. A prática de caluniar, difamar, injuriar, distorcer fatos e dados tornou-se habitual. O escândalo propagado e que dá capa para revistas e jornais, depois é justificado como um simples equívoco e o mirrado pedido de desculpas ocorre discretamente nos corredores ou no banheiro, o que é inaceitável.
A instituição parlamento tão vilipendiada nos últimos tempos, merece respeito. Indispensável para nossa sociedade e que surgiu antes mesmo da concepção de Estado. De órgão meramente consultivo da Europa medieval, passou ao importante papel de representação da sociedade e controle do governo. Se o controle do governo é cada vez mais confundido com atrelamento ou oposição histérica, a representação popular também parece cada vez mais distante.
Segundo pesquisa recente, no Congresso Nacional a figura preponderante é do sexo masculino, branco, na faixa dos 50 anos, com formação superior, empresário e dono de patrimônio superior a R$ 1 milhão. Perfil muito distante do padrão nacional. Nas cidades e estados a situação não é muito diferente. Mas o que afasta os detentores do poder e o cidadão comum é algo maior: a visão de mundo.
Observamos visões distorcidas da realidade e da necessidade que esse país possui. Os recursos naturais, sociais e econômicos precisam estar disponibilizados para o desenvolvimento de todos. E quando surgem iniciativas para que isso ocorra, são duramente combatidas.
No processo de autodegradação e autofagia política, enquanto muitos gritam por transparência, se esquecem da responsabilidade, da eficiência, da igualdade e da justiça social. No processo político, ferir e matar gratuitamente, embora pareça, não significa vitória. São apenas triunfos temporários e ilegítimos tão sensíveis, frágeis e reversíveis. Aos poucos todos perdem e todos morrem.
Os cidadãos e as cidadãs devem ficar atentos e imbuídos de destacado senso crítico, para melhor compreensão do momento político presente, onde o temor de eventual insucesso nas urnas faz com que atitudes tresloucadas sejam adotadas como práticas normais.

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