A Espetacularização da morte​

Minha geração cresceu assistindo o programa televisivo Fantástico – O Show da Vida. Era uma revista semanal com muitas variedades e durante muito tempo líder absoluto de audiência. A sociedade mudou e a mídia televisiva também.
O sensacionalismo começou a gerar audiência e a linha editorial em diversas emissoras começou a divulgar as tragédias humanas.
Com o advento das mídias sociais fenômeno semelhante aconteceu em proporções inimagináveis.
Além da descabida necessidade de exposição por meio de “selfies”, as pessoas começaram a postar fotos e vídeos das mais inusitadas situações. Desde o despertar até o primeiro bocejar da noite, tudo é postado na internet.
Cenas de intimidade são compartilhadas por milhões de pessoas em todo o mundo em questão de segundos. Ao mesmo tempo em que os exibicionistas cresceram os mexeriqueiros e “voyeurs” também se ampliaram em proporção ainda maior.
Registrar no celular pessoas em momentos delicados passou a ser a obsessão de alguns. Se o compartilhamento de pornografia infantil é repugnável, chegamos ao ponto mais esdrúxulo de existirem grupos especializados em compartilhar imagens de pessoas acidentadas.
Assistir vídeos ou visualizar fotos das tragédias alheias parece despertar um fetiche doentio ou uma sensação de alívio em alguns que imaginam: melhor acontecer com ele do que comigo! Quando parecia que já estávamos no fundo do poço da sensatez, eis que ocorre a tragédia com o cantor sertanejo. Ávidos por garantir pontos no ibope, foram mobilizados jornalistas, câmeras, repórteres, links e todo o aparato das emissoras que durante horas transmitiram imagens repetitivas da trajetória artística, da morte, do velório e sepultamento.
Mesmo as pessoas que jamais ouviram falar em Cristiano Araújo ficaram emotivas e sensibilizadas. Pouco ou quase nada se comentou sobre os dados do seguro obrigatório DPVAT, registrando que em 2014 o Brasil figurou entre os 50 países no mundo onde mais se morreu no trânsito.
Mais de 50 mil pessoas morreram em acidentes no país, sendo 136 mortes por dia ou cinco por hora. A grande maioria formada por anônimos que encontraram apenas em suas famílias ou círculos de amizades, última flor, a lágrima e a prece.
Mesmo assim, todos nós fomos impelidos a falar sobre a tragédia da BR-153, no km 614, entre Morrinhos e o trevo de Pontalina, em Goiás.
O quadro dantesco foi complementado com a proliferação através do whatsapp e depois facebook de fotos do atendimento na estrada, no hospital e na preparação funerária, além de um vídeo dos procedimentos de tanatopraxia.
Nesta lamentável sequência de atitudes descabidas, cumpre diferenciar os maus dos bons profissionais.
A tanatopraxia é uma das profissões mais dignas e menos conhecidas.
O especialista prepara corpos para sepultamento ou conservação. Ele pode restaurar um rosto e até recriar partes.
Além de técnico é um artista que dotado de conhecimentos de anatomia, fisiologia e psicologia que proporciona dignidade nas ultimas homenagens prestadas aos que faleceram. Repugnante a atitude de quem gravou, dos que divulgaram e compartilharam.
Não bastasse a morte trágica, a espetacularização promovida pela imprensa oficial e pelas mídias sociais deu um toque de mau gosto, desídia e desumanidade.
Parece que os cérebros e os corações estão “arrochados” de tal modo que estamos perdendo a noção dos princípios básicos da dignidade humana, o respeito ao semelhante.

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