A batalha

Há muito tempo, em uma daquelas madrugadas insones, assisti a um filme muito interessante que, lamentavelmente, não recordo o título. Tratava-se de uma batalha da primeira grande guerra mundial. Os exércitos inimigos disputavam cada centímetro do território e existia uma luta permanente por conquistar trincheiras e avançar no campo inimigo.
A cena mais marcante foi quanto em determinado momento um soldado avança nas linhas inimigas e utilizando sua baioneta, consegue ferir um adversário. Ambos caem em uma trincheira e ficam presos juntos durante horas. O soldado que não estava ferido não podia sair, pois seria executado e o agonizante não reunia forças para tal escalada.
Apesar da dificuldade inicial da língua, eles começam um diálogo interessante. O agonizante mostra fotos de sua família e comenta sobre suas atividades profissionais. Ambos não eram soldados profissionais. Foram convocados para a guerra e acreditavam que estavam fazendo o melhor pela sua pátria. Aos poucos passaram a compreender que possuíam muitas coisas em comum e iniciaram um questionamento sobre qual o fundamento para estarem em guerra.
As guerras entre países geralmente possuem muitos motivos, os principais são a disputa por territórios, recursos naturais, religião, honra, glória ou liberdade. Temos, ainda, as guerras civis, notadamente as contemporâneas como a do Congo, onde além de questões étnicas existem os interesses por recursos minerais como diamantes, cobalto, ouro e nióbio. Na Síria o pleito é mais democracia e liberdades individuais. No Egito houve um golpe militar e parte da população continua defendendo o presidente deposto. Na Nigéria o conflito é basicamente religioso.
No Brasil a batalha que era virtual, patrocinada principalmente por setores da imprensa e nas mídias sociais começa a ganhar as ruas. Pessoas estão renunciando ao debate político qualificado para partir para ações desprovidas de discernimento. Atualmente existe uma classificação entre bandidos e mocinhos e figuras do mundo político e jurídico passam a ser cultuadas como deuses ou super-heróis. A demonização dos que simplesmente pensam e de modo diferente se transforma em prática comum, aliás, ao longo da história isto já ocorreu e as consequências, como sabemos foram nefastas.
O combate à corrupção é um tema que unifica os pensamentos, mas por vezes é utilizado de modo seletivo, como se somente uma das partes detivesse a exclusividade da maléfica prática. Um detalhe merece destaque, a inadmissível concordância com ações ilegais quando o benefício é próprio. Em uma singela analogia seria como vibrar quando o árbitro erra em favor do clube preferido e destruir o estádio quando o erro beneficia o outro lado. Quando se fala em passar o país a limpo é fundamental que se utilize os produtos e ferramentas corretas.
Compete a todos nós apoiar as investigações sobre as inúmeras denúncias surgidas nos últimos tempos. Também devemos de modo enfático apoiar a legalidade e a manutenção do Estado Democrático de Direito com todas as garantias e normas democráticas conquistadas a duras penas. Não podemos compactuar com arbitrariedades de agentes públicos, especialmente no judiciário que é o responsável primeiro pela garantia dos direitos individuais, coletivos e funcionamento das instituições democráticas.
O filósofo francês Blaise Pascal já alertou que “O afeto ou o ódio mudam a face da justiça”. O que precisamos neste momento é que a serenidade prevaleça sobre a paixão política e que a justiça seja simplesmente imparcial e justa. A nossa democracia, mesmo que combalida, ainda é a melhor opção e para que prevaleça é fundamental a manutenção da normalidade, o funcionamento regular das instituições e preservação das regras e valores jurídicos e democráticos.

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