A arte da Guerra na Saúde

Quem teve a oportunidade de ler o livro “A Arte da Guerra” de Sun Tzu, concluiu que é um dos maiores tratados sobre liderança, planejamento e estratégia. Os treze capítulos apresentam importantes ensinamentos sobre disciplina, comando, gerenciamento de recursos, noções geográficas, razão porque muitos utilizam seus conceitos no mundo organizacional.
Nosso país e, em especial, nossa cidade vive uma verdadeira guerra contra o mosquito Aedes Aegpty que transmite doenças, as mais conhecidas, a Dengue, o Zika Vírus e a Chikungunya. Mas a saúde pública também possui outros inimigos difíceis de serem combatidos e muitos dos esforços parecem insuficientes. Assim, utilizar aquele manual para a situação presente parece ser um exercício interessante. Sun Tzu destaca a importância do conhecimento: “Aquele que conhece o inimigo e a si mesmo lutará cem batalhas sem perder; para aquele que não conhece o inimigo, mas conhece a si mesmo, as chances para a vitória ou derrota serão iguais; aquele que não conhece nem o inimigo e nem a si próprio será derrotado em todas as batalhas”. Quando falamos em saúde, especialmente saúde pública, certamente desconhecemos informações fundamentais.
A saúde é um tema que desperta interesses, paixões e discussões acaloradas. Para os noticiários de imprensa a certeza de audiência, para políticos interesseiros discursos inflamados e plateia interessada, mas aprofundar na identificação dos fatos geradores dos problemas e na construção de alternativas com soluções objetivas parece não interessar a todos.
O tema financiamento, talvez o mais importante, é renegado ao segundo plano. Com a municipalização, a União e os Estados ficaram mais tranquilos e as Prefeituras se viram em situação cada vez mais delicada. As intermináveis filas dão a sensação de que nada está bem e a resolutividade e excelência de vários serviços parece ofuscada pelo intenso brilho do sensacionalismo. As milhares de vidas salvas diariamente parecem não contar para os que procuram evidenciar apenas as mazelas.
Citemos um tema. Constantemente ouvimos a população clamando por mais médicos e realmente o número existente se mostra insuficiente frente a crescente demanda. Ocorre que a iniciativa de trazer médicos estrangeiros para locais específicos onde nossos patrícios não aceitam atuar causou grande polêmica. Então precisamos debater como formar uma quantidade maior de médicos comprometidos em atuar na rede pública de saúde.
Na última quarta-feira, foi realizada a Audiência Pública de Prestação de Contas da Secretaria Municipal da Saúde, referente ao 3º Quadrimestre de 2015. Os dados apresentados, que estão disponíveis para a consulta popular em http://www.ribeiraopreto.sp.gov.br/ssaude/pdf/prest-3-quadrimestre-2015.pdf, apontam que 23,07% dos recursos municipais foram utilizados em saúde. Um exército de 3.127 profissionais das mais variadas áreas foram mobilizados em 61 Unidades Básicas, Distritais, Especializadas, UPA e Saúde da Família, por exemplo. Somente na assistência farmacêutica foram 600.651 atendimentos e 1.409.798 dispensações em uma cidade onde, segundo o IBGE residem 666.323 Habitantes. Isso significa que quase todos os ribeirãopretanos compareceram nas farmácias das unidades de saúde ou que estamos atendendo brasileiros de outras localidades? E quem paga a conta?
A melhoria na gestão, a participação popular e o controle social, a ampliação das políticas de prevenção podem ser ferramentas ou armas importantes. Repactuar o financiamento da saúde uma munição importante. Mas não podemos, de modo algum, fortalecer o inimigo. A maioria dos atendimentos em ortopedia é causada por acidentes de trânsito que poderiam ser evitados com educação. A grande proliferação do Aedes Aegypti é graças às práticas equivocadas de higiene e limpeza dentro de nossas casas. Como ensinou o autor “Evitar guerras é muito mais gratificante do que vencer mil batalhas”. Assim, a prevenção certamente é o melhor remédio.
Outro equívoco que precisa ser corrigido é o patrocínio de litígios internos. Costumeiramente são divulgadas notícias de agressões sofridas por profissionais da saúde, de outro lado pacientes e acompanhantes cobram mais humanização nos atendimentos. Além dos problemas cotidianos, para prejuízo de todos, a saúde anda frenquentando muito as páginas policiais. Vale recordar que “Quando os soldados comuns são demasiadamente fortes e os seus oficiais superiores muitos fracos, o resultado é insubordinação. Quando os oficiais superiores são muito fortes e os soldados comuns fracos demais, o resultado é colapso. Quando os oficiais superiores estão com raiva, insubordinados e atendem à batalha contra o inimigo por sua própria conta e risco a partir de um sentimento de ressentimento, antes que o comandante-chefe diga se estão ou não em condições de lutar, o resultado inevitável é ruína”.
Encerro com outro ensinamento de Tzu: “A vitória é o principal objetivo na guerra, mas o verdadeiro propósito da guerra é a paz”. Que possamos alcançar a tão sonhada vitória e paz em uma saúde universal, equânime, integral e de qualidade.

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